QUASE UMA ADAPTAÇÃO

Inspirada no conto “Casa Tomada” de Julio Cortázar

Espetáculo contemplado na 3ª edição do Prêmio Zé Renato, com previsão de estreia para fevereiro de 2016.

 

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FICHA TÉCNICA:
Texto: Julio Cortázar
Dramaturgia: Lucas Lassen
Direção: Tatiana Bueno
Consultoria Histórica: Ricardo Cardoso
Preparação de Atores: Inês Aranha
Elenco: Alexandra DaMatta, Bia Toledo e Everson Romito
Iluminação: Lisa Medeiros
Cenário e Figurinos: Osvaldo Piva
Costureira: Therezinha Bueno
Fotos: João Valério
Vídeo: FVFilmes
Realização: Nossa Companhia
Produção: Clube do Mecenas
Quando Júlio Cortázar escreveu o conto “Casa Tomada” em 1946, a Argentina vivia um intenso momento de mudanças sociais. Não haveria ainda nem um ano que o peronismo explodira em meio às classes populares, quando em maio de 1945 centenas de operários marcharam em Buenos Aires, dos subúrbios ao centro, em prol da libertação do antigo Secretário de Trabalho, o coronel Juan Domingo Perón. Estes homens que irrompiam na nova ordem social da capital argentina, até então tida como bastião da educada classe média, arregaçaram as calças e lavaram os pés descalços no chafariz da praça do Congresso. O episódio ficaria gravado na memória coletiva como “patas en las fuentes”, para horror do cidadão que se julgava civilizado. Estes novos agentes sociais, os ‘descamisados’, ficariam também conhecidos como “cabecitas negras”, em flagrante contraposição às muitas cabeças louras de ascendência europeia que usufruíam do charme da capital argentina.
Muitos dos intelectuais ficaram horrorizados com a emergência das cabecinhas negras no jogo político. Perón foi libertado e em 1946 se tornou presidente da república argentina, para ainda maior terror da classe média. Cortázar se incluía entre os boquiabertos intelectuais da época. É nesse contexto que escreveu o conto tratado aqui, retratando este momento de profundas alterações sociais em que as classes populares começaram a emergir num movimento de massa, capitaneados por um militar populista e por sua mulher, uma atriz de rádio, Eva Perón. Evidentemente, o governo de Perón não era visto como um governo de esquerda – angariou críticas até mesmo de Che Guevara. Apenas depois de sua destituição é que os intelectuais e artistas de esquerda começaram a pensar criticamente o momento histórico pelo qual passaram e combateram. Foi pelos idos dos anos 1960 que muitos elementos da esquerda e da intelligentsia argentina passaram a simpatizar com Perón e sua política populista, que pretensamente, ou não, deu novo lugar à preocupação com as classes pobres na condução do país.
“Casa Tomada” reflete de forma dialética este momento de horror da classe média frente a emergência da importância dos cabecinhas negras na condução do governo. Em alegorias inteligentes, Cortázar transforma o governo em uma “casa tomada” pelos agentes da poeira da cidade, as pantufas da personagem Irene são confiscadas pelas “patas em la fuentes” do outro lado do recinto em que ela e seu irmão vivem como decadentes e socialmente inúteis personagens. Por outro lado, o medo do que está acontecendo reflete as apreensões de todos que testemunham uma mudança histórica de paradigmas sociais. Assim, embora saibamos que novos elementos estão tomando o espaço que outrora foi construído em nome da civilização burguesa, como os cômodos da casa tradicional da rica família da história (ou História), não sabemos quem são eles, o que farão, o que acontecerá. Não sabemos se a casa será incendiada pelos que a tomaram, sejam Black Blocs ou não; invadida pela polícia para o retorno da ‘ordem’, como os edifícios tomados pelo movimento dos sem teto; se os velhos proprietários serão assassinados à queima roupa, “como os brancos durante a revolução escrava na independência do Haiti; ou se será derrubada para a construção de shopping centers, como aconteceu com as mansões que deram lugar ao Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo; ou se se buscará a redistribuição do espaço, como na Revolução Russa e seus fatos que foram imortalizados no filme “Doutor Jivago”.
Em meio ao atual momento brasileiro, a reflexão causada pelo conto de Cortázar se faz
muito proveitosa. Nos últimos anos, o Brasil foi riscado do mapa mundial da fome, cinquenta milhões de pessoas saíram da linha de miséria, uma massa de gente se mudou da classe D para a C, e da C para a B. Preconceitos emergiram, questionamentos de (não) condutas sociais foram feitos aos borbotões, reclamações em aeroportos pela “gente diferenciada” que agora visita Paris. Por outro lado, esse movimento ascendente não foi acompanhado de uma reflexão social por todos os agentes envolvidos, de reformas no campo da educação, reforma política, e desenvolvimento do pensamento crítico.
Apenas o acesso aos bens de consumo não constrói uma sociedade. Choques se fizeram, entre partidos, cidadãos, o velho tema da “luta de classes” foi ressuscitada no debate acadêmico e no virtual.
Se antes os novos agentes sociais argentinos foram malhados por enfiarem os pés no chafariz da praça do Congresso, hoje os jovens da periferia de São Paulo são impedidos de entrar em grupos nos shopping centers no famoso “rolêzinho”.
Uma obra de arte surge da realidade social em que é engendrada, e o momento brasileiro atual guarda flagrantes convergências, assim como inúmeras divergências, com este momento em que Cortázar produziu “Casa Tomada”, criticando justamente a ascendência das classes desfavorecidas. Apenas mais tarde é que o autor pensaria criticamente este momento no qual se debateu. Devidamente atualizados, é nossa intenção investigar estes enfoques e desfoques na encenação. Outro importante ponto que gostaríamos de explorar é o da especulação imobiliária que atinge hoje a cidade de São Paulo, desmontando sua Historia, sua memória, que nos deveria ser tão cara. Muitos de nossos teatros estão se transformando em igrejas, em prédios, alguns correm o risco intermitente de se verem desalojados pelos preços do aluguel, como o Satyros e o Cemitério de Automóveis, ou se veem à margem da descaracterização, caso mais notável do Oficina de Zé Celso, ou mesmo em casos como o do Bartholomeu e do Cit Ecum que já perderam para a especulação imobiliária. Bairros inteiros estão se transformando em outros bairros, sem planejamento do poder público, e a identidade coletiva parece que só tem a perder com isso. Por outro lado, a realidade histórica é implacável, por que os teatros seriam uma exceção nesse momento de desmonte da arquitetura e identidade? Será que nos vemos como os personagens do conto, ou seja, merecedores de privilégio durante mudanças tão latentes? Por que não há diálogo entre os personagens e aqueles que estão entrando na Historia pela porta dos fundos? Aliás, quem são esses que estão entrando pelas portas dos fundos, são os novos ricos, ou são os velhos pobres? Como dissemos, a questão é dialética e não se coloca em uma via só. Explorar esta situação nova no contexto brasileiro é nossa intenção, com a particularidade de vivermos na maior cidade do país, onde estes conflitos se mostram de forma mais latente. Queremos refletir coletivamente com o público, afinal eles também estarão dentro do teatro que será pouco a pouco tomado durante a encenação, durante a estória e a História. 

Ricardo Cardoso
Bacharel (2012) e Licenciado (2014) em História pela Universidade de São Paulo (USP). Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Bolsista FAPESP (março/ 2014 – fevereiro/2016). Bolsista PAE-USP (julho/2014-novembro/2014). Tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna, História Ibérica, História da Cultura e História do Teatro; e na área de Tradução, com ênfase na obra de William Shakespeare. Orientadora: Profa. Dra. Iris Kantor, DH-FFLCH-USP. Participante do Grupo de Estudos “História Ibérica Moderna” (GEHIM-USP – http://historiaibericamoderna.wordpress.com/), Grupo de Pesquisa CNPq “Poder e Política na Época Moderna (séculos XV-XVIII)”. 
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